FERTILIDADE MASCULINA: A METADE DA EQUAÇÃO QUE NINGUÉM TE EXPLICA
Quando um casal não engravida, a primeira pergunta é quase sempre feita à mulher. Mas o fator masculino está presente em quase metade dos casos.
SAÚDE MASCULINA
Henrique Pedroso
8/5/20263 min read
Um casal tenta engravidar há mais de um ano e nada acontece. Marcam consulta, fazem exames, ecografias, análises hormonais. E, na maior parte das vezes, é ela quem entra primeiro no consultório.
O homem fica de fora do processo até muito mais tarde, como se a fertilidade fosse, por defeito, um assunto feminino. Não é. Em cerca de quarenta a cinquenta por cento dos casos de infertilidade num casal, existe um fator masculino associado. Isto significa que, em praticamente metade das vezes, o problema (ou parte dele) está do lado de quem nunca é o primeiro a ser avaliado.
O mito de que a fertilidade é “coisa de mulher”
Este mito tem consequências reais. Atrasa diagnósticos, prolonga o sofrimento de casais que tentam engravidar e faz com que muitos homens só procurem ajuda depois de anos de tentativas falhadas, quando já foram feitos inúmeros exames à parceira, todos normais.
A fertilidade masculina depende de vários fatores mensuráveis: quantidade de espermatozoides, mobilidade, forma e integridade genética. Qualquer um destes parâmetros pode estar alterado sem que o homem sinta absolutamente nada de diferente. Não há dor, não há sintoma óbvio. É por isso que tantos homens só descobrem que têm um problema de fertilidade quando já estão a tentar ter filhos há muito tempo.
O que realmente afeta a qualidade do esperma?
A produção de espermatozoides é um processo contínuo e sensível ao estilo de vida. Alguns dos fatores com maior impacto, sustentados pela evidência científica, incluem:
• Calor prolongado nos testículos: banhos muito quentes frequentes, saunas, portáteis ao colo durante horas ou trabalho sentado durante longos períodos podem reduzir a qualidade do esperma, porque os testículos precisam de estar a uma temperatura ligeiramente inferior à do resto do corpo.
• Tabaco e álcool em excesso: ambos estão associados a menor concentração e pior mobilidade dos espermatozoides.
• Obesidade e sedentarismo: o tecido adiposo em excesso altera o equilíbrio hormonal, reduzindo a testosterona disponível e afetando a produção de esperma.
• Sono insuficiente: a produção de testosterona acontece sobretudo durante o sono profundo; dormir mal de forma crónica reduz os níveis hormonais que sustentam a fertilidade.
• Stress crónico: eleva o cortisol de forma sustentada, o que interfere com o eixo hormonal responsável pela produção de espermatozoides.
• Sedentarismo prolongado e má postura pélvica: afetam a circulação sanguínea na região pélvica e escrotal, importante para a saúde testicular.
A boa notícia é que a maior parte destes fatores é modificável. Ao contrário de muitas condições de saúde, aqui existe uma margem real de melhoria através de mudanças de hábito, muitas vezes visível já num novo espermograma feito alguns meses depois.
O exame que ninguém quer fazer
O espermograma é simples, rápido e enormemente informativo, mas continua a ser um dos exames mais evitados por homens. Analisa concentração, mobilidade e morfologia dos espermatozoides, dando uma fotografia clara da fertilidade masculina naquele momento.
Se tu e a tua parceira estão a tentar engravidar há mais de doze meses (ou seis meses, se ela tiver mais de trinta e cinco anos) sem sucesso, este exame deveria ser um dos primeiros passos, e não um dos últimos. Fazê-lo cedo poupa tempo, dinheiro e desgaste emocional a ambos.
Quando procurar ajuda especializada?
Vale a pena consultar um urologista ou especialista em fertilidade masculina se:
• Há mais de um ano de tentativas sem sucesso.
• Existe historial de cirurgia testicular, varicocele ou infeções urogenitais.
• Foste exposto a quimioterapia, radioterapia ou tratamentos hormonais no passado.
• Notas alterações no volume testicular ou dor persistente na zona genital.
• Tens dúvidas sobre hábitos de vida que possam estar a interferir na fertilidade.
O papel da fisioterapia pélvica
A fisioterapia pélvica não substitui a avaliação médica da fertilidade, mas pode ser um complemento relevante. Um pavimento pélvico tenso, com má circulação ou em desequilíbrio, pode afetar a função sexual, a ejaculação e o conforto na zona genital, fatores que, indiretamente, também influenciam o processo de tentar engravidar.
Trabalhar a mobilidade pélvica, reduzir tensão muscular crónica na zona e melhorar a circulação local são intervenções que fazem parte de uma abordagem mais completa à saúde reprodutiva masculina, especialmente quando existem queixas associadas, como desconforto pélvico, disfunção erétil ou alterações na ejaculação.
