OPERASTE À PRÓSTATA. E AGORA?
O que ninguém te explica antes da cirurgia, e o que a fisioterapia pélvica pode fazer pela tua recuperação.
FISIOTERAPIA PÉLVICA
Henrique Pedroso
7/23/20265 min read


O cancro da próstata é o cancro mais diagnosticado nos homens em Portugal. E a prostatectomia radical, a remoção cirúrgica da próstata, é um dos tratamentos mais comuns. Quando o diagnóstico chega e a cirurgia é indicada, o foco natural é tratar a doença. Perceber-se o que vem a seguir fica, muitas vezes, para segundo plano.
Mas o que vem a seguir importa muito. A incontinência urinária e a disfunção erétil são as duas consequências mais frequentes após a prostatectomia. Afetam a qualidade de vida de forma significativa e, no entanto, são raramente discutidas com detalhe antes da cirurgia, e ainda menos acompanhadas de forma estruturada depois dela.
Este artigo é sobre o que podes fazer. Antes e depois da cirurgia.
O que muda no teu corpo com a cirurgia?
A próstata está anatomicamente encaixada entre a bexiga e a uretra, e rodeada por estruturas neuromusculares que controlam tanto a continência urinária como a função erétil. A sua remoção afeta inevitavelmente estas estruturas, mesmo nas cirurgias com preservação de nervos, que são hoje a norma sempre que oncologicamente possível.
As duas consequências mais comuns são:
Incontinência urinária
Com a remoção da próstata, o esfíncter urinário externo, o músculo que controla ativamente a saída de urina, fica a ser a única barreira de continência. Antes da cirurgia, a próstata contribuía passivamente para esse controlo. Sem ela, o esfíncter tem de trabalhar sozinho, frequentemente depois de ter sido temporariamente comprometido pelo procedimento cirúrgico.
O resultado é incontinência de esforço: perda de urina ao tossir, espirrar, levantar peso ou fazer exercício. A maioria dos homens experimenta algum grau de incontinência nas semanas e meses após a cirurgia. Com reabilitação adequada, a maior parte recupera a continência. Sem ela, o processo é mais lento e menos completo.
Disfunção erétil
Os nervos responsáveis pela ereção correm lateralmente à próstata. Mesmo em cirurgias com preservação nervosa, estes nervos ficam traumatizados, esticados, comprimidos ou parcialmente lesados. A recuperação da função erétil após prostatectomia é um processo que pode levar meses a anos, e que depende de vários fatores: a técnica cirúrgica, a experiência do cirurgião, a função erétil prévia à cirurgia, a idade e o estado de saúde geral.
O que a investigação mostra com consistência é que a reabilitação peniana precoce, iniciada ainda antes da função erétil espontânea reaparecer, melhora significativamente os resultados a longo prazo.
Porque a fisioterapia pélvica deve começar antes da cirurgia?
Este é um dos pontos mais importantes, e mais subutilizados, na reabilitação pós-prostatectomia.
Homens que iniciam fisioterapia pélvica antes da cirurgia recuperam a continência mais rapidamente e de forma mais completa do que os que começam apenas depois. A razão é simples: começar a trabalhar o pavimento pélvico quando ainda há função normal é muito mais eficaz do que tentar reabilitar um músculo que já foi perturbado cirurgicamente.
O que se trabalha na fase pré-operatória:
– Consciência e ativação correta do esfíncter urinário externo e dos músculos do pavimento pélvico.
– Coordenação entre a contração pélvica e os momentos de aumento de pressão abdominal — tossir, espirrar, levantar.
– Eliminação de padrões compensatórios incorretos, como contrair os glúteos ou a barriga em vez do pavimento pélvico.
– Preparação psicológica e compreensão do processo de recuperação.
Uma ou duas consultas antes da cirurgia podem fazer uma diferença substancial na recuperação. Se ainda não operaste e tens cirurgia marcada, este é o momento de agir.
A reabilitação pós-operatória: o que esperar e quando
Primeiras semanas — com cateter
Nos primeiros dias após a cirurgia, o cateter urinário está presente. Nesta fase, o trabalho de fisioterapia foca-se em educar sobre o que acontecerá quando o cateter for retirado e em gerir a ansiedade em torno da recuperação.
Após a retirada do cateter
Este é habitualmente o momento de maior vulnerabilidade. A perda de urina é quase universal nas primeiras semanas. É esperada, é normal, e é transitória na maioria dos casos. O trabalho de fisioterapia pélvica começa a ser mais ativo: contrações progressivas do pavimento pélvico, estratégias para os momentos de esforço, gestão dos episódios de urgência.
Meses 1 a 6
A maior parte da recuperação da continência ocorre neste período. Com um programa estruturado, a maioria dos homens atinge continência social, seco na maior parte do dia, com perdas mínimas em situações de esforço intenso , entre os 3 e os 6 meses. Alguns chegam antes, outros precisam de mais tempo.
Além dos 6 meses
A recuperação pode continuar até 18 a 24 meses após a cirurgia. Homens que ainda experienciam incontinência significativa ao fim de 6 meses beneficiam de avaliação aprofundada, pode haver padrões musculares a corrigir, hiperatividade da bexiga a tratar, ou outros fatores a considerar.
Reabilitação da função erétil: o que a fisioterapia pode fazer?
A disfunção erétil pós-prostatectomia tem uma componente neurológica, os nervos traumatizados precisam de tempo para recuperar, mas também uma componente vascular e muscular onde a fisioterapia pélvica tem um papel direto.
O conceito de reabilitação peniana baseia-se na evidência de que oxigenação regular dos tecidos penianos durante o período de recuperação nervosa preserva a saúde do músculo liso peniano e favorece a recuperação erétil. As abordagens incluem:
– Exercícios de pavimento pélvico orientados para a função erétil e ejaculatória.
– Trabalho de consciência corporal e reconexão com a sexualidade após a cirurgia.
– Coordenação com o urologista para decisões sobre medicação de suporte à reabilitação peniana.
– Utilização da bomba de vácuo como ferramenta de reabilitação peniana, promovendo oxigenação e mantendo a elasticidade dos tecidos durante o período de recuperação nervosa.
– Abordagem do impacto psicológico da disfunção erétil no contexto pós-oncológico.
Esta é uma área onde a colaboração entre fisioterapeuta pélvico, urologista e, quando indicado, psicólogo ou sexologista, produz os melhores resultados.
O impacto que raramente se discute: a saúde mental
Um diagnóstico de cancro, uma cirurgia de grande impacto funcional, e a perspetiva de meses de recuperação com incontinência e disfunção erétil têm um custo emocional real. Muitos homens descrevem sentimentos de perda de identidade, de masculinidade e de controlo sobre o próprio corpo.
Estes sentimentos são legítimos e comuns. E merecem atenção tanto quanto os sintomas físicos. Um processo de reabilitação bem estruturado reconhece esta dimensão e, quando necessário, integra apoio psicológico especializado.
O objetivo não é apenas recuperar a continência ou a ereção. É recuperar a qualidade de vida, e a relação com o próprio corpo.
Quando procurar fisioterapia pélvica?
A resposta ideal é: antes da cirurgia, se ainda houver tempo. Na prática, a maioria dos homens chega à fisioterapia pélvica depois, às vezes semanas, às vezes meses após a cirurgia.
Não existe momento demasiado tardio para começar. Mesmo homens que operaram há mais de um ano e ainda têm incontinência residual ou disfunção erétil significativa podem beneficiar de avaliação e reabilitação pélvica.
Se és médico, urologista, oncologista ou enfermeiro e chegaste a este artigo: a referenciação para fisioterapia pélvica no pré-operatório é uma das intervenções com melhor evidência e menor custo neste contexto. Vale a pena integrar na rotina de preparação cirúrgica.
