Disfunção erétil e coração: porque é que a ereção pode ser o primeiro aviso
Menos firmeza, ereções matinais que desaparecem e a ideia de que "é da idade". O que os estudos dizem sobre a ligação entre a ereção e a saúde dos teus vasos, e o que fazer com essa informação.
SAÚDE MASCULINA
Henrique Pedroso
10/7/202611 min read
A disfunção erétil e a doença cardiovascular estão mais ligadas do que a maioria dos homens imagina. Pensa no José. Tem 48 anos, passa o dia sentado ao computador, jantou fora mais vezes do que devia este ano e deixou o ginásio em março. Nos últimos meses notou que as ereções já não são tão firmes, que às vezes perde a ereção a meio e que quase deixou de acordar com uma ereção matinal. Encolhe os ombros e pensa: é da idade.
Pode ser. Mas também pode ser a primeira vez que o corpo lhe está a dar informação sobre os vasos sanguíneos, muito antes de o coração dar qualquer sinal. Este artigo explica porquê, sem alarmismo e sem rodeios, e mostra o que podes levar ao teu próximo check up.
Um sintoma que ninguém liga ao coração
Estamos habituados a pensar na ereção como um tema sexual, quase privado, que se resolve (ou se esconde) entre quatro paredes. A medicina olha para ela de outra forma. Uma ereção depende de vasos saudáveis, de nervos que funcionam e de músculos que respondem. Quando alguma destas peças começa a falhar, a ereção é muitas vezes a primeira a notar.
E não estás sozinho. O Estudo de Disfunção Erétil em Portugal (EDEP), que avaliou 3548 homens entre os 40 e os 69 anos em centros de saúde, encontrou algum grau de disfunção erétil em 29% dos homens entre os 40 e os 49 anos, em 50% entre os 50 e os 59 e em 74% entre os 60 e os 69.
Estes números mostram que o problema é muito comum. Mas comum não é o mesmo que normal. O facto de muitos homens da tua idade terem a mesma dificuldade não quer dizer que não exista uma causa por trás, e algumas dessas causas vale a pena apanhar cedo.
Como funciona uma ereção
Para perceberes porque é que a ereção pode avisar primeiro, precisas de saber o que é necessário para ela acontecer. São três pilares, e todos têm de funcionar ao mesmo tempo.
Vasos: o sangue tem de entrar. Com o estímulo sexual, o revestimento interno das artérias do pénis (o endotélio) liberta óxido nítrico, uma molécula que relaxa o músculo liso das artérias e dos corpos cavernosos. As artérias dilatam, o sangue entra em grande quantidade e os corpos cavernosos enchem, como uma esponja que absorve água.
Nervos: alguém tem de dar a ordem. Nada disto começa sem sinal. Os nervos cavernosos, que passam muito perto da próstata, levam a mensagem da medula até ao pénis. O estímulo pode ser físico ou mental, e é por isso que o que se passa na cabeça conta tanto.
Músculos: o sangue tem de ficar. À medida que os corpos cavernosos enchem, as veias que drenam o pénis ficam comprimidas e o sangue fica retido. Aqui entram dois músculos do pavimento pélvico. O isquiocavernoso envolve a raiz dos corpos cavernosos e, ao contrair, aumenta a pressão no seu interior. O bulboesponjoso envolve a base do pénis, ajuda a manter a rigidez e participa mais tarde na ejaculação.
Se os vasos não trazem sangue suficiente, a ereção não chega a ficar completa. Se os nervos não transmitem o sinal, nem começa. Se os músculos não ajudam a reter o sangue, a ereção aparece mas não aguenta.
Porque é que o pénis avisa primeiro?
A doença das artérias (aterosclerose) não é um problema de um órgão. É um processo que atinge o corpo inteiro. Começa com a disfunção do endotélio, que deixa de produzir óxido nítrico como devia, e evolui para a acumulação de placas nas paredes das artérias. Tensão alta, diabetes, colesterol elevado, tabaco e sedentarismo aceleram este processo em todas as artérias ao mesmo tempo.
Então porque é que os sintomas não aparecem todos juntos? A explicação mais aceite é a hipótese do calibre arterial, proposta pelo cardiologista Piero Montorsi e colegas. As artérias do pénis têm cerca de 1 a 2 mm de diâmetro, enquanto as coronárias, que levam sangue ao coração, têm cerca de 3 a 4 mm. A mesma quantidade de placa, ou a mesma perda de função do endotélio, reduz muito mais o fluxo numa artéria fina do que numa artéria larga.
O resultado é simples de entender: a ereção pode falhar anos antes de o coração ter falta de sangue suficiente para provocar dor no peito. Na prática, a disfunção erétil de causa vascular funciona como uma luz de aviso no painel do carro. Não quer dizer que o motor vá parar amanhã. Quer dizer que está na altura de abrir o capô.
O que dizem os estudos?
A ligação entre a ereção e o coração não é uma teoria de consultório. Tem sido estudada há mais de vinte anos.
Em 2003, Francesco Montorsi e colegas avaliaram 300 homens que chegaram ao hospital com dor no peito e doença coronária confirmada por angiografia. Quase metade (49%) tinha disfunção erétil. E em dois terços desses homens (67%), as dificuldades de ereção tinham começado antes dos sintomas cardíacos, em média cerca de três anos antes.
Em 2013, uma meta análise liderada por Charalambos Vlachopoulos juntou 14 estudos com quase 93 mil homens, acompanhados em média durante seis anos. Comparados com homens sem disfunção erétil, os que tinham disfunção erétil apresentavam um risco 44% maior de eventos cardiovasculares no total, 62% maior de enfarte, 39% maior de acidente vascular cerebral e 25% maior de morte por qualquer causa. A associação era mais forte nos homens mais novos, precisamente aqueles em quem ninguém está à espera de um problema cardíaco.
Com base nesta evidência, o consenso de Princeton III, um painel internacional de urologistas, cardiologistas e endocrinologistas, recomendou que todos os homens com disfunção erétil e sem doença cardiovascular conhecida façam uma avaliação do risco cardiovascular. As guidelines da Associação Europeia de Urologia seguem a mesma linha.
É importante ler estes números com calma. Primeiro, os estudos mostram associação, não causa: a disfunção erétil não provoca enfartes, partilha as mesmas origens. Segundo, "44% maior" é um risco relativo. Se o teu risco de base é baixo, continua a ser baixo, apenas um pouco menos. Terceiro, nem toda a disfunção erétil é vascular. Risco aumentado não é um destino; é um motivo para olhar.
Sinais que merecem atenção
Alguns padrões apontam mais para uma causa física, e em particular vascular:
• Instalação gradual. As dificuldades foram aparecendo ao longo de meses ou anos, sem um momento claro em que tudo mudou.
• Menos ereções noturnas e matinais. Durante o sono, sobretudo na fase de sonhos, o homem tem várias ereções automáticas por noite, que não dependem de desejo nem de ansiedade. Quando deixam de aparecer, isso sugere que a mecânica, e não a cabeça, está a falhar.
• Dificuldade em todas as situações. Não só com a parceira, mas também sozinho e com qualquer tipo de estímulo.
• Fatores de risco presentes. Tensão alta, diabetes ou pré diabetes, colesterol elevado, tabaco, gordura abdominal, sedentarismo ou historial familiar de doença cardíaca antes dos 55 anos.
Se te revês em dois ou mais destes pontos, não é motivo para pânico. É motivo para marcar uma consulta. Esta semana falo das ereções matinais num Reel da série "Será mesmo assim?", e o carrossel de quarta feira resume esta ligação em nove slides.
Vascular, psicológica ou muscular?
Na vida real, as causas raramente aparecem sozinhas. Ainda assim, há pistas que ajudam o médico e o fisioterapeuta a perceber para onde olhar primeiro.
Há quatro pistas que ajudam a fazer essa distinção. A primeira é a forma como tudo começou: quando as dificuldades surgem aos poucos, ao longo de meses, a causa tende a ser física; quando aparecem de repente, ligadas a um momento ou a uma fase difícil, pesa mais a componente psicológica. A segunda são as ereções matinais: se diminuíram ou desapareceram, o mais provável é que a mecânica esteja a falhar; se continuam presentes, os vasos e os nervos estão, em princípio, a funcionar. A terceira é o contexto: dificuldade em todas as situações aponta para o corpo, enquanto dificuldade só em algumas (por exemplo, sozinho sim, com a parceira não) aponta mais para a cabeça. A quarta são os fatores de risco, que estão frequentemente presentes quando a causa é física e podem não existir quando é psicológica.
E há o ciclo que liga tudo. Uma causa física provoca uma primeira falha. Na vez seguinte, já vais preocupado. A preocupação ativa o sistema de alerta do corpo, que liberta adrenalina e contrai os vasos, exatamente o contrário do que a ereção precisa. A falha volta a acontecer, a ansiedade cresce e o problema, que começou no corpo, passa a viver também na cabeça. É por isso que dizer "é psicológico" ou "é físico" quase nunca chega. Na maioria dos homens é dos dois. No sábado, Dia Mundial da Saúde Mental, publico um carrossel dedicado à ansiedade de desempenho.
O que falar no check up?
Fazer análises não chega; o que conta é a conversa. Se notaste mudanças na ereção, conta ao teu médico de família com todas as letras: "Nos últimos meses tenho tido dificuldades de ereção." É uma frase curta que muda a consulta.
Estes são os pontos que fazem sentido rever:
• Tensão arterial, medida em consulta e, se possível, também em casa.
• Glicemia em jejum ou hemoglobina glicada, para despistar diabetes ou pré diabetes.
• Perfil lipídico: colesterol total, LDL, HDL e triglicéridos.
• Perímetro abdominal: a medida da cintura diz mais sobre o risco cardiovascular do que o número da balança.
• Medicação atual: alguns medicamentos para a tensão, antidepressivos e outros fármacos podem interferir com a ereção. Nunca os suspendas por tua conta; fala com o médico.
• Sono: se ressonas muito e acordas cansado, pergunta pela apneia do sono.
• Testosterona, apenas se o médico a considerar indicada, por exemplo quando há também perda de desejo ou cansaço marcado. Deve ser medida de manhã.
Um alerta importante: não compres comprimidos para a ereção sem receita. Estes medicamentos são seguros para a maioria dos homens, mas têm contraindicações, sobretudo em quem toma nitratos para o coração, e tomar estes comprimidos sem avaliação é tratar o sintoma e ignorar o aviso. O carrossel desta segunda feira tem a lista dos seis temas a levar ao check up; guarda esse carrossel para levares à consulta.
Onde entra a fisioterapia pélvica?
Os vasos e os nervos são território do médico. Mas os músculos que ajudam a manter a rigidez, o isquiocavernoso e o bulboesponjoso, fazem parte do pavimento pélvico, e esses podem ser avaliados e treinados.
O estudo mais citado é um ensaio clínico de Grace Dorey e colegas, publicado em 2005. Participaram 55 homens com disfunção erétil há pelo menos seis meses. Um grupo fez treino dos músculos do pavimento pélvico ensinado por um fisioterapeuta, com biofeedback e conselhos de estilo de vida; o outro recebeu apenas os conselhos. Aos três meses, a função erétil era significativamente melhor no grupo que treinou. Aos seis meses, depois de todos terem feito o treino, 40% dos homens tinham recuperado uma função erétil normal, 35,5% tinham melhorado e 24,5% não tinham melhorado.
São resultados animadores, mas convém ser honesto sobre os limites: é um estudo pequeno, de uma única equipa, e não substitui ensaios maiores. O treino do pavimento pélvico não desentope artérias nem trata a causa vascular. Complementa a avaliação e o tratamento médico; não os substitui.
Numa consulta de fisioterapia pélvica, avalio a força, a resistência, a coordenação e a capacidade de relaxar destes músculos. Nem sempre o problema é fraqueza: há homens com um pavimento pélvico tenso demais, e para eles o primeiro passo é aprender a largar, não a apertar. É por isso que os exercícios de Kegel feitos às cegas, a partir de um vídeo, nem sempre ajudam.
Se já falaste com o teu médico e queres perceber se o teu pavimento pélvico está a contribuir para o que sentes, é exatamente isso que avalio em consulta, no Barreiro e em Almada.
O que podes fazer já
Estas mudanças protegem os teus vasos, incluindo os que chegam ao pénis. Em alguns homens melhoram a ereção; em todos, o objetivo principal é outro: proteger o coração.
• Mexe o corpo com regularidade. Caminhada rápida, bicicleta, musculação, natação ou corrida. A evidência aponta para cerca de 160 minutos por semana de atividade aeróbia moderada a vigorosa, mantida durante meses. Se estás parado há muito tempo, começa com menos e sobe aos poucos.
• Deixa o tabaco. É um dos fatores que mais danifica o endotélio. O teu centro de saúde tem consultas de cessação tabágica que podem ajudar.
• Dorme o suficiente. É durante o sono que acontecem as ereções noturnas e boa parte da produção de testosterona.
• Reduz o álcool. Um copo pode descontrair, mas o consumo regular prejudica vasos, nervos e hormonas.
• Olha para a cintura. Reduzir a gordura abdominal melhora a tensão, a glicemia e o colesterol ao mesmo tempo.
• Não esperes. O tempo que passa entre o primeiro sinal e a primeira consulta é tempo que os teus vasos não recuperam.
Não há aqui promessas de resultado em prazos fixos. As mudanças no estilo de vida levam meses a dar resultados visíveis, e cada homem responde de forma diferente.
Quando procurar ajuda
Marca uma consulta com o teu médico de família se:
• as dificuldades de ereção duram há mais de três meses;
• as ereções matinais diminuíram muito ou desapareceram;
• tens fatores de risco cardiovascular e nunca foste avaliado;
• começaste a evitar a intimidade por causa do problema.
Procura ajuda de imediato, ligando o 112, se sentires dor ou aperto no peito, sobretudo com esforço, falta de ar súbita ou desmaio. Em caso de dúvida, o SNS 24 (808 24 24 24) pode dar orientação.
Perguntas frequentes
A disfunção erétil é sempre sinal de problema cardíaco?
Não. Pode ter causas psicológicas, hormonais, neurológicas, musculares ou ser efeito de medicação. Mas como a causa vascular é das mais frequentes a partir dos 40 anos, a recomendação é avaliar o risco cardiovascular em todos os homens com disfunção erétil, para não deixar escapar os casos em que o aviso é real.
Com que idade é normal ter dificuldades de ereção?
Com a idade, é esperado que a ereção demore um pouco mais, precise de mais estímulo e seja menos frequente. Isso é diferente de não conseguir uma ereção firme o suficiente para uma relação satisfatória. Aos 40 ou aos 70, se a mudança te incomoda ou está a aumentar, merece ser avaliada. A idade explica parte das mudanças, não todas.
A fisioterapia pélvica resolve a disfunção erétil?
Depende da causa. Quando os músculos do pavimento pélvico estão a contribuir, o treino orientado tem evidência de benefício. Quando a causa é sobretudo vascular, a fisioterapia complementa, mas não substitui, o tratamento médico e as mudanças no estilo de vida. Uma avaliação ajuda a perceber que peso tem cada fator no teu caso.
Os comprimidos para a ereção fazem mal ao coração?
Para a maioria dos homens, receitados após avaliação, são seguros. São contraindicados em quem toma nitratos e exigem cuidado em algumas doenças cardíacas. É por isso que devem ser prescritos por um médico e nunca comprados pela internet.
Resumo: o que levas daqui
• A ereção depende de vasos, nervos e músculos; quando falha, pode ser o primeiro sinal de um problema nos vasos.
• As artérias do pénis são mais finas do que as do coração, por isso podem dar sinal anos antes.
• Homens com disfunção erétil têm, em média, maior risco cardiovascular, mas risco não é destino.
• Perda gradual, ereções matinais que desaparecem e fatores de risco são sinais para falar com o médico.
• O pavimento pélvico participa na rigidez e pode ser avaliado e treinado, como complemento da avaliação médica.
LÊ A SEGUIR
Na próxima quarta feira, 14 de outubro, o tema é o treino de força e o pavimento pélvico: fugas, dor e desempenho em quem treina. Se o exercício é a primeira recomendação para os teus vasos, vale a pena saber como treinar sem sobrecarregar a base do tronco.
Este artigo é informativo e não substitui uma avaliação individual.
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