Prostatectomia: como preparar o pavimento pélvico antes e depois da cirurgia

Antes da cirurgia já podes começar a recuperar: o que fazer com o pavimento pélvico antes e depois da prostatectomia.

FISIOTERAPIA PÉLVICA

Henrique Pedroso

10/28/20266 min read

Se tens uma prostatectomia marcada, é provável que a tua cabeça esteja ocupada com o diagnóstico, com a cirurgia e com o que vem depois. O pavimento pélvico raramente entra nessa lista. Devia entrar: é um dos poucos fatores da tua recuperação em que tu próprio podes trabalhar, e podes começar antes de entrares no bloco operatório.

Neste artigo explico o que acontece ao controlo da urina quando a próstata é retirada, o que a ciência diz sobre preparar os músculos antes da cirurgia e como deve ser o treino nas semanas seguintes. Sem promessas, mas com aquilo que sabemos hoje.

O que muda no teu corpo depois da prostatectomia

A próstata fica logo abaixo da bexiga e envolve a uretra, o canal por onde a urina sai. Quando é retirada (o que acontece, na maioria dos casos, no tratamento do cancro da próstata), o cirurgião tem de voltar a ligar a bexiga à uretra.

Até aqui, o teu controlo da urina dependia de duas "válvulas": uma junto ao colo da bexiga e outra mais abaixo, o esfíncter uretral externo, apoiado pelos músculos do pavimento pélvico. A cirurgia afeta sobretudo a primeira. A partir desse momento, é a segunda que passa a fazer quase todo o trabalho.

É por isso que, depois da cirurgia, muitos homens têm perdas de urina quando tossem, espirram, se levantam da cadeira ou pegam em peso. Chama-se incontinência urinária de esforço e, na maioria dos casos, vai melhorando de forma progressiva ao longo dos primeiros meses. O ritmo dessa melhoria varia muito de homem para homem, e é aqui que o treino do pavimento pélvico entra.

Antes da cirurgia: o que a evidência diz (com honestidade)

A ideia de treinar os músculos antes da operação faz sentido: chegas à cirurgia a saber contrair corretamente e com músculos mais preparados para assumir o novo papel. Mas a ciência ainda não fechou o assunto, e prefiro dizer-te isso com clareza.

Uma meta-análise de 2025, publicada na Neurourology and Urodynamics, concluiu que o treino antes da cirurgia parece acelerar a recuperação da continência por volta dos três meses, mas sem diferenças claras ao fim de seis ou doze meses. Uma análise anterior, de 2020, não encontrou diferenças em nenhum momento. Ou seja, o treino pré-operatório pode ajudar-te a recuperar mais depressa, mas não deve ser visto como uma garantia.

Os resultados parecem melhores em dois cenários:

• Quando o treino é feito com biofeedback, ou seja, com um aparelho que mostra em tempo real se estás a contrair o músculo certo. Uma revisão de 2025, na European Urology Focus, encontrou menos perdas de urina até ao primeiro ano nos homens que treinaram assim antes da cirurgia, embora a qualidade dos estudos ainda seja baixa.

• Quando o treino do pavimento pélvico é combinado com exercício aeróbio e de força. Uma revisão espanhola de 2025 mostrou que estes programas mais completos e mais longos tendem a dar melhor recuperação funcional do que programas leves e curtos.

Há ainda um ganho que os números nem sempre captam: a informação. Saber o que vais sentir quando a sonda for retirada, o que é normal e o que não é, reduz a ansiedade e ajuda-te a cumprir o plano. Investigadores franceses defendem precisamente isto: a preparação antes da cirurgia não deve limitar-se a fortalecer músculos.

O que podes fazer nas semanas antes da cirurgia

O ideal é começares algumas semanas antes da data marcada. Na prática, isto significa:

1. Confirmar que contrais o músculo certo. Muitos homens, quando lhes pedem para contrair o pavimento pélvico, empurram para baixo (como para evacuar), prendem a respiração ou apertam os glúteos. Uma avaliação com um fisioterapeuta pélvico resolve isto logo no início.

2. Treinar dois tipos de contração. Contrações rápidas, para reagir a uma tosse ou a um espirro, e contrações mantidas durante alguns segundos, para resistência. A dose certa depende do teu ponto de partida.

3. Aprender a contrair antes do esforço. Contrair o pavimento pélvico um instante antes de tossir, espirrar ou levantar algo é uma das ferramentas mais úteis que vais levar para o pós-operatório.

4. Manter-te ativo. Caminhar, treinar força e cuidar da condição física geral prepara o corpo para a cirurgia e para a recuperação.

5. Esclarecer dúvidas com o teu urologista. Por exemplo: quanto tempo vais ficar com a sonda, se a técnica preserva os nervos da ereção e quando podes retomar o exercício.

Os primeiros dias: enquanto tens a sonda

Depois da cirurgia vais ficar algum tempo com uma sonda vesical, enquanto a nova ligação entre a bexiga e a uretra cicatriza. O tempo exato é definido pela tua equipa cirúrgica.

Nesta fase, o objetivo não é treinar com intensidade. Habitualmente, não se fazem contrações do pavimento pélvico com a sonda colocada, a não ser que a tua equipa indique o contrário. O que podes fazer: caminhar todos os dias, respirar de forma calma e profunda, evitar a obstipação (beber água e comer fibra ajuda) e não fazer esforços com peso. Segue sempre as indicações de quem te operou.

Depois de retirar a sonda: o treino a sério

Quando a sonda é retirada, é normal teres perdas de urina, sobretudo de pé e em movimento. Não é sinal de que algo correu mal. É o momento em que o treino que aprendeste antes da cirurgia começa a fazer diferença.

O treino do pavimento pélvico depois da prostatectomia é a abordagem conservadora com mais estudos a suportá-la. Uma revisão de 2022, que analisou 18 revisões sistemáticas, concluiu que melhora a incontinência após a cirurgia e que o biofeedback pode acrescentar benefício a curto e médio prazo.

Um bom programa costuma seguir esta lógica:

• Progredir de posição: começar deitado, onde é mais fácil, e avançar para sentado, de pé e em movimento.

• Levar o treino para a vida real: contrair ao levantar da cadeira, ao subir escadas, ao pegar no saco das compras.

• Cuidar dos hábitos da bexiga: não reduzir a água para evitar perdas (a urina concentrada irrita a bexiga), moderar a cafeína e o álcool e evitar ir à casa de banho "por precaução" a toda a hora.

• Voltar ao exercício de forma gradual: caminhar, depois treino de força progressivo. Programas que juntam o pavimento pélvico a exercício geral mostram ganhos na continência, na condição física e na qualidade de vida.

A recuperação raramente é linear. Há semanas em que parece que não sais do sítio, e é normal.

E a função sexual?

A ereção é muitas vezes afetada depois da prostatectomia, sobretudo pela forma como os nervos responsáveis por ela reagem à cirurgia. A reabilitação peniana (medicação, dispositivos de vácuo e outras estratégias) é orientada pelo teu urologista com apoio da fisioterapia.

O pavimento pélvico também participa: alguns destes músculos ajudam a manter a rigidez da ereção, como expliquei no artigo sobre disfunção erétil e o papel do músculo (Disfunção erétil, quando o problema está no músculo, não na cabeça | Homem Inteiro). A evidência sobre o treino pélvico para a função sexual depois da prostatectomia ainda é limitada, mas faz sentido integrá-lo no plano de recuperação, articulado com o urologista. Falar deste tema na consulta não é exagero nem vaidade: é qualidade de vida.

Os erros mais comuns

• Treinar sem ter confirmado que a contração está correta.

• Fazer centenas de contrações por dia até o músculo ficar exausto.

• Desistir ao fim de poucas semanas porque "não está a resultar".

• Beber muito menos água para não ter perdas.

• Esperar para ver, em vez de pedir ajuda logo no início.

Quando procurar um fisioterapeuta pélvico

O melhor momento é antes da cirurgia, assim que a data estiver marcada. O segundo melhor momento é logo depois de retirares a sonda. E se já passaram meses, continua a valer a pena: nunca é tarde para uma avaliação.

Este artigo é informativo e não substitui uma avaliação individual. Cada cirurgia e cada homem são diferentes; segue sempre as indicações da tua equipa médica.

Resumo: o que levas daqui

• Depois da prostatectomia, o esfíncter externo e o pavimento pélvico passam a fazer quase todo o trabalho de controlo da urina.

• Treinar antes da cirurgia pode acelerar a recuperação nos primeiros meses, sobretudo com biofeedback e exercício geral; a evidência ainda não é definitiva.

• Com a sonda, o foco é caminhar, respirar e evitar esforços; o treino a sério começa quando é retirada.

• O treino do pavimento pélvico depois da cirurgia é a abordagem conservadora mais estudada para a incontinência.

• A função sexual também faz parte da recuperação e merece ser falada.

Tens uma prostatectomia marcada ou já fizeste a cirurgia?

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Referências

• Terzoni S, et al. Preoperative Pelvic Muscle Training for Continence Recovery After Prostatectomy: Yet Another Meta-Analysis? Neurourol Urodyn, 2025. DOI

• Brea-Gómez B, et al. Pelvic Floor Muscle Training with Preoperative Biofeedback in Patients with Postprostatectomy Incontinence. Eur Urol Focus, 2025. DOI

• Aguila-Gimeno O, et al. Pelvic floor rehabilitation before radical prostatectomy: a systematic review. BMC Urol, 2025. DOI

• Yang JM, et al. Effect of pelvic floor muscle training on urinary incontinence after radical prostatectomy: an umbrella review. Clin Rehabil, 2023. DOI

• Cheng H, et al. Preoperative pelvic floor muscle exercise does not reduce the rate of postprostatectomy incontinence. Transl Androl Urol, 2020. DOI

• Steenstrup B, et al. A systematic review of supervised comprehensive functional physiotherapy after radical prostatectomy. Prog Urol, 2022. DOI

• Cerutti E, et al. Pelvic floor rehabilitation before prostatectomy: An update. Prog Urol, 2022. DOI

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